Fábia Rebordão

Fábia Rebordão

Para Fábia Rebordão, fado é a forma de cantar a vida, uma vida feita de momentos repletos de verdade. Aliás, para Fábia Rebordão, fado significa verdade – e, se estiver a cantar com verdade, estará sempre a cantar fado.

Desde que, com seis anos, foi escolhida para cantar numa festa de Natal, na escola, a música tornou-se, de imediato, o seu foco e a sua vocação. As colheres de pau serviam de microfone e as janelas de casa eram o instrumento perfeito para reverberar a sua voz. À noite, fechava os olhos e deixava-se embalar por aplausos imaginários, rumo à terra dos sonhos. Se lhe perguntassem o que queria ser quando fosse grande, a resposta era simples: queria cantar. Um vizinho afirma categórico “tens voz de fado”, lançando-lhe o desafio de aprender dois fados para que possa atuar, pela primeira vez, na Tasca do Chico.

A experiência deixa-a de tal forma inebriada que, na mesma noite, canta nas várias casas circundantes. A sua vida nunca mais seria a mesma: faz o percurso das coletividades e das tasquinhas, onde encontra a verdadeira essência do fado. Com 14 anos, está a cantar nos Ferreiras mas também na Taverna do Embuçado. Não foi à universidade mas aprendeu com os mais catedráticos professores, de Fernando Maurício a Beatriz da Conceição, de Celeste Rodrigues a Paquito.

Só que a música, em Fábia Rebordão, nunca se encerrou apenas no fado: com 17 anos, integra o musical “My Fair Lady”, de Filipe La Féria, mas também mostra sede de aprender, ao participar, em 2003, em “Operação Triunfo”, emitido pela RTP. Eclética, versátil, eterna curiosa, lança-se até na representação, sendo possível encontra-la na série “O Clube”, da SIC.

Liberta de amarras que provocassem constrangimentos ao olhar, interessa-se pelas músicas de raiz, do flamenco aos blues, do jazz ao folclore, do samba à morna, músicas que nascem nas ruas e que lhe provocam arrepios, que transpiram verdade. Como o fado. Em 2011, a sua primeira letra, “Quem Em Mim Habita”, com música de Alfredo Marceneiro, dá o mote para o seu primeiro álbum: “A Oitava Cor” não é, apenas, o seu registo de estreia – é, também, o disco no qual Fábia Rebordão se apresenta em pleno. Cinco anos mais tarde, surge “Eu”, álbum em que canta Tozé Brito ou Pedro da Silva Martins mas onde assume ainda mais a sua preponderância como compositora. Muito mais do que uma interprete, Fábia Rebordão é a autora que já compôs para nomes como Miguel Ramos, Jorge Fernando ou Cuca Roseta.

Sucedem-se os aplausos: é distinguida com o Prémio Amália para Revelação, reconhecimento que o semanário Expresso também lhe atribui, ao mesmo tempo que percorre os melhores palcos do planeta, chegando a atuar no mítico Carnegie Hall, em Nova Iorque, ou no Concertgebouw, em Amesterdão, com a orquestra sinfónica dirigida pelo galardoado maestro e produtor Vince Mendoza.

“Estranha Forma de Vida” é apresentado em março de 2020, numa celebração que se reparte entre o seu aniversário e a homenagem a uma das suas maiores referências, sendo Fábia Rebordão uma das vozes escolhidas para a suprema comemoração do centenário do nascimento de Amália, em julho, no concerto “Bem-vinda Sejas Amália”. Mas “Estranha Forma de Vida” é, também, o primeiro passo para o seu novo álbum e o seu maior desafio até à data.

Nunca Fábia Rebordão foi tão Fábia Rebordão, completa e segura da sua obra. Nunca foi tão inteira, quer a entoar palavras clássicas quer a transmitir as histórias que conta nas suas próprias canções – e nunca se expôs como agora. Este regresso aos discos é, também, o seu projecto mais ambicioso, repleto de cuidado, pormenor e verdade. A sua verdade enquanto interprete, sim, mas, acima de tudo, enquanto autora. Uma autora que, nas suas músicas e nas suas letras, carrega intrínseca uma alma ímpar. Quando essa alma surge, só pode falar verdade, a tal verdade que só se encontra no fado – e em Fábia Rebordão.